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Archive for novembro \03\UTC 2010

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Entrevista com Gustavo Duch, autor do livro “O que é preciso engolir”, que denuncia os disparates da política e da alimentação

“Os alimentos são uma mercadoria com a qual alguns poucos lucram”
Nicolas Artusi

Clarín, Argentina. 1 de octubre de 2010

 

Homer Simpson contra Popeye: na batalha dos desenhos animados, se o chefe de família lutasse contra o marinheiro nômade, também se enfrentariam dois modelos de alimentação. É a batalha da beladona contra o espinafre. Nos tempos modernos, come-se mal, muito e caro. Então, estamos diante de um apocalipse alimentar?

São necessários 7 litros de petróleo para obter um quilo de carne de vaca e 3 mil litros de água para obter um quilo de frango. “Nós, os carnívoros, devemos ter em conta que, se não moderarmos nosso consumo, nos transformaremos em parte de uma máquina perversa”, alerta Gustavo Duch desde Barcelona. Ele é um veterinário espanhol que acaba de publicar  o livro “Lo que hay que tragar: Minienciclopedia de política y alimentación” (O que é preciso engolir: Minienciclopédia de Política e Alimentação), uma denúncia contra os disparates alimentares: a cada 24 horas, 3500 porcos viajam de vários países da Europa para a Espanha e, nesse mesmo dias, outros 3000 fazem o caminho inverso. No lago Vitória, na África, as multinacionais extraem diariamente milhões de peixes para consumo no Primeiro Mundo, enquanto que milhões de moradores africanos nas imediações do lago morrem de fome. Os quilômetros que percorrem muitos dos alimentos que consumimos encerram absurdos como esse. E se é certo que, para preparar ovos fritos com lingüiça a galinha colabora, mas o porco fica comprometido, a parábola ilustra a diferença entre o interesse e a luta: Gustavo se propõe a lutar como um Robin Hood da comida e defende o direito à refeição de pobres e jovens, também lutando para que os países consigam uma “soberania alimentar”.

Qual você considera a maior aberração na alimentação multinacional moderna?

É isso mesmo que você diz, que seja multinacional em um mapa-mundi sem controle, onde os alimentos são uma mercadoria com a qual lucram poucos.

 

Comidas rápidas, gorduras, álcool: Qual é a ameaça para uma boa alimentação juvenil?

É a alimentação “SEM”. Ou seja, sem informações do que se esconde por trás de muitas coisas que comemos; sem contato com as mãos que produzem alimentos sãos, de qualidade e com respeito com o meio ambiente;e sem valor, por que não é valorizado o ato em si de comermos e nutrirnos; Se a alimentação “SEM” continuar se espalhando, a maior ameaça será ficarmos sem alimentação.

 

Porque você escolheu Homer Simpson e Popeye como símbolos?

Homer é como um lobo que se alimenta mal à base de carne. Popeye promove um maior consumo de vegetais em nossa dieta. O excesso de carne é um mau aproveitamento de muitos hectares férteis. É um desperdício de energia e de água, e da mesma forma que temos desorganizado o mundo, é também  uma viagem de proteínas do Sul para o Norte, justamente quando o Norte está tão obeso quanto Homer Simpson.

 

Por que você diz que o capitalismo nos matará de fome?

Por que ele já está fazendo isso! Fundos de investimento, capitais de risco e outras fórmulas especulam e jogam com a alimentação. Fazem os preços da comida subir e baixar como em uma montanha russa, compram as melhores terras férteis, compactuam com as multinacionais e aumentam a pobreza entre a classe campesina, a mais empobrecida e, paradoxalmente, mais privada de alimentos.

 

A Argentina produz 1,5% dos alimentos mundiais e tem 0,5% da população do planeta. Como pode haver desnutrição no país?

A poesia explica tudo. Depois de tantas histórias de dominação das metrópoles européias e oligarquias autóctones, “las penas son de nosotros, las vaquitas son ajenas” (as penas são nossas, as vaquinhas são alheias) *, chegou a submissão aos mercados, também europeus. Um país que entrega metade de suas terras a negociantes da exportação é um país que entrega metade sua soberania alimentar. Os números não mentem: 50% de soja, 50% de pobreza. Líamos na Espanha as respostas da Presidente diante do aumento da carne na Argentina: “Comam mais peixe”. É uma falta de soberania transferir aos consumidores a responsabilidade de uma situação que corresponde a uma estratégia agrária muito má: a soja alheia não deixa lugar para as vaquinhas próprias. Uma pena.

 

(*) N. do T. Verso de música de Atahualpa Yupanqui

 

Fonte: http://loquehayquetragar.wordpress.com/2010/10/01/el-que-no-se-come-ninguna

 

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

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